Há um pequeno lápis na gaveta da cozinha, daqueles que distribuem gratuitamente na loja de móveis com uma pequena régua de papel impressa na lateral. Tem dez centímetros de comprimento. A mina está descentralizada. Sobreviveu a três mudanças e a duas rondas de deitar coisas fora, e sempre que abro essa gaveta vejo-o e penso: devia usá-lo, e depois não uso.
✏️ Porque guardamos coisas
O lápis nunca foi uma prenda. Ninguém o escolheu para mim. Veio num caixote de cartão junto à saída, e eu levei um porque estava ali, e agora durou mais do que um candeeiro pelo qual paguei dinheiro a sério.
Isso parece um erro na contabilidade de uma vida. As coisas que escolhemos com cuidado vão-se embora; as coisas que chegam por acidente ficam. Não tenho uma boa explicação para isso. Apenas noto que continua a ser verdade.
🧾 O lápis lembra-se
Levei-o porque estava a medir uma prateleira. Tinha uma parede, e um vão, e a preocupação de que a prateleira não coubesse, e o lápis fez parte de resolver isso. Ainda tem a marca — uma linha ténue perto da borracha onde parei.
Portanto, já não é bem um lápis. É um recibo de uma tarde de sábado em que estava ligeiramente nervoso por causa de um pedaço de madeira.
A boa caneta na outra gaveta não tem nenhuma tarde dessas associada. Foi comprada para uma versão de mim que escreve as coisas com cuidado. Essa versão continua pendente.
🖊️ Objetos sem culpa
A boa caneta é uma pequena acusação. Sempre que a vejo, penso nas cartas que não escrevi, nos postais que queria ter enviado, no diário que comprei em janeiro.
O lápis não pede nada. Já está partido, já é barato, já passou o ponto em que alguém poderia esperar muito dele. Há um tipo de liberdade num objeto que não tem futuro. Não se pode falhar com um lápis que foi gratuito.
🗑️ Talvez seja só tralha
A objeção honesta é que isto é uma história que estou a contar para evitar deitar algo fora. As pessoas que guardam todos os lápis gratuitos não são sentimentais; são desorganizadas, e a gaveta enche-se, e eventualmente não se encontra a tesoura.
Eu sei disso. Já conheci a gaveta que não fecha. Há um custo real em guardar pequenas coisas inúteis, e paga-se nos dois minutos que se passa a remexer por entre elas todas as semanas.
⚠️Portanto, talvez o lápis não seja uma memória. Talvez seja apenas uma coisa que nunca cheguei a tratar. Não consigo distinguir totalmente a diferença de dentro da gaveta.
🚪 A gaveta fica fechada
Provavelmente vou guardá-lo. Não porque signifique alguma coisa, mas porque deitá-lo fora exigiria decidir que a prateleira, e a tarde, e a medição nervosa estão terminadas. Não estão. O lápis continua ali, ainda demasiado curto para segurar com conforto, ainda à espera de uma tarefa em que ainda não pensei.
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