Um amigo me envia um link às onze da noite. Sem mensagem, apenas o link. Eu abro, leio dois parágrafos e já consigo sentir a forma — a indignação familiar, o vilão familiar, o final familiar onde estamos certos e eles errados. Envio um joinha de volta. Já fizemos isso umas quarenta vezes.
🔁 Por que repassamos a mesma raiva
Não é realmente informação. Ninguém aprende nada. O link não converte ninguém. As pessoas para quem envio já concordam comigo, e as que discordam nunca vão vê-lo.
Então o que a mensagem está realmente fazendo? Acho que é menos como um jornal e mais como uma batida na parede. Estou aqui. Você está aí. Ainda estamos do mesmo lado.
🧑🤝🧑 A mensagem é endereçada a nós
Quando repasso algo, não estou falando com o outro lado. Estou falando com os meus. O link é uma pequena prova de que eu pertenço, de que percebi, de que estou prestando atenção às coisas certas. Não custa nada e diz alguma coisa.
Numa semana em que não liguei para ninguém, não apareci em lugar nenhum, não fiz muita coisa, o repasse é uma forma de estar presente sem estar presente. É uma mão no ombro do outro lado da sala.
⚡ A adrenalina de ter certeza
Há uma sensação que tenho quando leio uma história que confirma o que já penso. É rápida e calorosa. É o oposto da sensação que tenho ao ler algo que complica minha visão, que é lenta e um pouco azeda.
O repasse é uma forma de perseguir aquela primeira sensação de novo. Não porque preciso dos fatos, mas porque gosto da certeza. É um prazer pequeno, barato e repetível, e não há nada de errado com prazer. Só que este não constrói nada. Apenas mantém.
⚖️ Talvez o risco seja real
Quero ser justo aqui. É fácil chamar isso de vazio, mas muita da raiva não é fabricada. As pessoas estão preocupadas com coisas reais — o aluguel, a escola dos filhos, o rumo do país.
Quando você não pode fazer muito sobre nada disso, repassar algo é uma das poucas ações disponíveis. É um voto, um grito, uma pequena marca na parede. Descartar isso como mera identidade é uma forma de dizer que a preocupação não é real. É real. O repasse é apenas uma ferramenta pobre para um sentimento real.
🧱 O que a batida na parede não faz
Eu ainda envio os links. Ainda os recebo. E percebo que as amizades que tenho que sobrevivem à discordância são aquelas em que nunca repassamos nada. Apenas conversamos.
O repasse acontece com as pessoas com quem já concordo, e isso nos mantém aquecidos, mas nos mantém parados. Talvez isso seja bom. Talvez uma amizade precise dos dois — aqueles com quem você discute e aqueles para quem você bate na parede. Não sei qual deles eu manteria se tivesse que escolher.
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