O Pote de Especiarias que Sempre Ignoramos

O Pote de Especiarias que Sempre Ignoramos

Uma reflexão sobre os potes de especiarias que compramos mas nunca abrimos, e o que eles dizem sobre o cozinheiro que imaginamos ser.


Há um pequeno pote de za'atar no meu armário. Está lá há dois anos. Comprei numa barraca de mercado onde a mulher me deixou cheirá-lo primeiro. Cheirava a tomilho e gergelim e algo que não consegui identificar. Imaginei pão sírio e azeite. Nunca fiz pão sírio. O pote fica atrás do cominho, que também uso menos do que deveria.

❓ A Pergunta

Por que continuamos comprando misturas de especiarias que sabemos que não vamos usar? Não as básicas — sal, pimenta-do-reino, páprica, essas são usadas. Refiro-me àquelas que exigem uma receita: garam masala, ras el hanout, berbere. Elas chegam em casa num saquinho ou pote, cheias de promessas. Depois, ficam paradas.

Meses se passam. A cor desbota. Compramos outra numa viagem, ou porque um amigo recomendou, ou porque o rótulo era bonito. A antiga continua lá.

ℹ️Este fenômeno não é sobre preguiça — é sobre aspiração. O pote guarda a fantasia de um cozinheiro mais aventureiro.

🧑‍🍳 A Fantasia do Cozinheiro que Queremos Ser

Acho que a compra não é sobre o jantar. É sobre a pessoa que prepararia o jantar. Essa pessoa tem tempo. Ela deixa o grão-de-bico de molho durante a noite. Tosta as especiarias numa frigideira seca antes de moê-las. Sabe o que berbere tem gosto porque esteve na Etiópia, ou pelo menos tem um amigo que lhe ensinou.

Essa pessoa não sou eu numa terça-feira à noite depois do trabalho, encarando a geladeira e decidindo fazer macarrão de novo. Mas o pote diz que essa pessoa pode existir. É uma promessa pequena e acessível.

O pote não é um ingrediente. É uma promessa para um eu futuro que tem mais tempo e energia.

🎨 O Apelo Visual do Pote

Os potes de especiarias têm boa aparência. Têm cores: amarelo de cúrcuma, vermelho de sumagre, marrom de cominho. Numa prateleira, são um tipo de decoração. Dizem algo sobre a cozinha, sobre a pessoa que a possui. Um pote de za'atar sugere cosmopolitanismo. Um pote de páprica defumada sugere profundidade.

Organizamo-los por altura ou por cor. Deixamo-los visíveis. Não são ingredientes. São adereços para uma vida que estamos encenando.

😣 A Culpa do Não Usado

Mas a culpa é real. Toda vez que abro o armário, o za'atar está lá. Penso: devia usar isso. Devia encontrar uma receita. Devia convidar pessoas e fazer algo impressionante. Então fecho a porta e faço ovos mexidos.

A culpa aumenta. Torna-se mais fácil ignorar. Eventualmente, o pote é empurrado para o fundo. Torna-se parte do ruído de fundo da cozinha, como o liquidificador que nunca uso ou a máquina de pão que comprei durante o confinamento.

⚠️Esta espiral de culpa e evitação é uma armadilha. O pote nunca foi feito para ser um fardo — foi feito para ser uma inspiração.

🤔 A Complicação Honesta

Talvez o pote não seja um fracasso. Talvez ele sirva a um propósito mesmo quando fica fechado. Lembra-me que existe um mundo de comida mais amplo do que aquele que cozinho. Guarda a memória do mercado, da mulher que sorriu quando o cheirei. É um marcador numa vida que poderia ser diferente.

E às vezes, depois de um tempo suficientemente longo, eu o abro. Polvilho-o em algo simples — legumes assados, um pedaço de peixe. Fica bom. Não porque fiz pão sírio, mas porque finalmente parei de esperar pelo momento perfeito.

O pote é paciente. Ele não julga. É apenas um pote de ervas secas e uma pergunta sobre quem achamos que somos.

🏁 O Fechamento

O za'atar ainda está lá. Posso usá-lo esta semana. Ou posso não usar. De qualquer forma, ele ficará no armário, esperando. É paciente. Não julga. É apenas um pote de ervas secas e uma pergunta sobre quem achamos que somos.


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