Há um armário na minha cozinha com quatro copos de vinho na prateleira de cima. Foram um presente há anos, de haste fina, daqueles que tilintam quando você bate neles. Usei-os duas vezes. Ambas as vezes foram para convidados. Na terça-feira passada bebi água num pote de geleia porque a máquina de lavar louça estava cheia, e os copos bons ficaram acima de mim o tempo todo, esperando.
🤔 Por que guardamos as melhores coisas para outras pessoas?
Quase todo mundo tem uma versão dessa prateleira. A vela que nunca foi acesa. As toalhas boas dobradas no armário do corredor enquanto as desfiadas ficam penduradas no gancho. A garrafa de algo especial guardada para uma ocasião que nunca chega.
Dizemos a nós mesmos que estamos guardando essas coisas, mas guardando para quê, exatamente? A ocasião é sempre a visita de outra pessoa. Nós não somos a ocasião.
🎁 Os copos são uma promessa
Parte disso é que as coisas boas só significam algo quando são testemunhadas. Uma boa taça de vinho sozinho na pia é só uma taça de vinho. Entregue a um amigo que a nota, ela se torna hospitalidade, torna-se cuidado, torna-se um pequeno evento.
Guardamos as coisas boas porque é assim que dizemos algo a outras pessoas, e dizer isso a nós mesmos parece estranho, quase embaraçoso, como escrever uma nota de agradecimento para si mesmo. Os copos não são para beber. São para dar.
🎭 Estamos ensaiando para uma vida
Há outra leitura. Manter as coisas boas fora do uso diário é uma espécie de ensaio. Estamos praticando para a versão da nossa vida em que os convidados vêm com mais frequência, em que a mesa está cheia, em que somos o tipo de pessoa que recebe gente num domingo.
O armário é um cenário para uma peça que raramente entra em cartaz. Usar os adereços todos os dias significaria admitir que a peça não é o principal, que na maioria das noites somos só nós e um pote de geleia, e isso é mais difícil de encarar do que uma prateleira empoeirada.
🧰 Talvez seja só prático
Mas devo ser honesto. Há uma explicação mais simples, e pode ser a verdadeira. Copos de haste fina quebram. Convidados são raros, então o risco é baixo, e a recompensa é alta. Se eu os usasse diariamente, dois já teriam sumido na primavera, e então eu teria dois copos em vez de quatro, e na próxima vez que quatro pessoas viessem eu estaria entregando uma caneca para alguém.
Guardar as coisas boas pode não ser autonegação. Pode ser planejamento comum, o mesmo instinto que nos faz manter uma chave reserva e o tanque de gasolina cheio. A prateleira não é uma ferida. É uma prateleira.
😳 Para que serve a prateleira, na verdade
Ainda assim, continuo pensando na água no pote de geleia. Não porque sofri. Não sofri. Mas porque há uma pequena lacuna entre a vida que tenho e a vida para a qual meu armário está mobiliado, e de vez em quando eu a percebo. Os copos esperam.
Não acho que isso seja triste, exatamente. É apenas verdade, do jeito que a maioria dos nossos arranjos é verdade: um pouco impraticável, um pouco esperançoso, voltado para pessoas que não estão na sala.
Talvez neste fim de semana eu sirva algo em um deles e beba em pé, sem ocasião. Ou talvez eu os deixe onde estão, e eles continuarão esperando, e isso também estará bom.
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