Minha mãe tem um conjunto de copos que ganhou de presente de casamento. Hastes finas, uma borda dourada, pesados de um jeito que faz você segurá-los de forma diferente. Por trinta anos eles viveram na prateleira de cima, atrás das tigelas de misturar. Bebíamos água em potes de geleia e copos descombinados com logotipos desbotados. Uma vez por ano ela tirava os bons, lavava-os e os colocava de volta.
🤔 Para que estamos guardando eles?
A resposta é sempre um jantar. Um jantar onde todos estão presentes, onde nada queima, onde a conversa não deriva para as discussões de sempre. Esse jantar continua sendo adiado. Alguém está doente, alguém está trabalhando, alguém não está falando com alguém.
Então os copos ficam lá em cima, e os do dia a dia continuam lascando, e continuamos bebendo neles porque já estão lascados e não importa.
Eu costumava achar isso triste. Agora acho que é apenas como as pessoas lidam com o tempo. Guardamos uma pequena reserva de coisas boas para um dia que não conseguimos nomear.
🫂 O objeto não sabe nada do seu próprio valor
Um copo não se importa se está com água da torneira ou champanhe. Ele não tem opinião sobre a ocasião. O valor está inteiramente na mão que o segura, na pessoa que decidiu que este momento conta.
Essa é a parte estranha: o copo é o mesmo copo numa noite de terça-feira como é num aniversário. O que muda é se concordamos em chamar a noite de especial.
E raramente concordamos. A maioria das noites são apenas noites. Então os copos bons esperam por um veredito que nunca vem.
🕯️ O dia em que finalmente descem
Na minha experiência, os copos bons são usados para dois tipos de ocasião.
- A que planejamos — um grande aniversário de casamento, uma formatura, uma mesa empurrada para o quintal.
- A que ninguém planejou: a noite após um funeral, quando as pessoas voltam para casa e alguém diz, pegue os copos bons, e ninguém discute.
Esse segundo tipo acontece mais do que você imagina. A dor nos torna generosos com as coisas que estávamos guardando.
O que me faz pensar se os copos nunca foram realmente para celebração. Talvez fossem para o momento em que finalmente paramos de contar pontos.
📦 Talvez guardar seja o objetivo
Aqui é onde posso estar errado. Tenho tratado a prateleira de cima como uma pequena tragédia, uma vida adiada. Mas há outra leitura. Os copos estarem lá, sem uso, é um prazer por si só.
Você sabe que eles estão lá em cima. Toda vez que você passa por eles para pegar um copo, você está ciente de uma versão da sua vida que ainda é possível — uma mesa mais cheia, uma noite mais calma, pessoas que você ama numa só sala. A reserva não é desperdiçada. Ela está fazendo um trabalho silencioso, mantendo uma porta aberta.
Use-os todos os dias e você perde isso. Eles se tornam comuns. A borda dourada perde o brilho na lava-louças. Não sobra nada para passar por eles.
Então talvez minha mãe não os estivesse guardando para um jantar. Talvez ela estivesse guardando a ideia de um.
🏠 O armário continua cheio
Eu tenho um conjunto agora, herdado, ainda em sua maioria na prateleira. Semana passada eu coloquei um copo de água em um deles sem motivo nenhum. Pareceu um pouco ridículo. Também pareceu algo. O resto ainda está lá em cima, esperando, e não tenho pressa de trazê-los para baixo.
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