A Camisa que Fica no Armário

A Camisa que Fica no Armário

Uma reflexão sobre as roupas que guardamos, mas nunca usamos, e o que elas dizem sobre quem pensamos que somos.


Há uma camisa de linho azul no meu armário. Comprei-a há três verões, numa pequena loja perto da costa. O tecido agora está macio, lavado muitas vezes. Usei-a exatamente uma vez, numa terça-feira que acabou por estar nublada. Todas as primaveras, tiro-a do cabide, seguro-a e volto a colocá-la.

🧥 A Questão do Não Usado

Porque guardamos roupas que nunca vestimos? Não as sentimentais — os sapatos de bebé, a T-shirt de concerto de uma banda de que já não gostamos. Essas têm um trabalho claro: guardam memórias.

Um armário com um suéter, vestido e sapatos não usados, representado num estilo de pintura vanitas.

Mas e o suéter perfeitamente bom que fica intocado durante dois anos? O vestido que serve mas nunca parece certo? Os sapatos que ainda têm as palmilhas originais?

👤 A Pessoa em Que Nos Podemos Tornar

Algumas destas roupas pertencem a uma pessoa que pensamos que podemos vir a ser. A camisa de linho é para alguém que bebe café numa varanda às 7 da manhã, que vai para a praia por impulso, que não verifica o tempo primeiro. Essa pessoa parece agradável. Guardo a camisa para ele.

Uma camisa de linho num armário com uma varanda e praia visíveis através de uma janela, estilizada como uma fotografia dos anos 1970.

Ele nunca parece chegar, mas não estou pronto para admitir que não chegará. Então a camisa fica, uma pequena promessa a um estranho que continuo a esperar encontrar.

🎁 O Presente Que Não Podemos Devolver

Depois, há as coisas que nos foram dadas. Uma amiga deu-me uma vez um casaco de lã pesado. Era bonito, bem feito, caro. Também era dois tamanhos pequeno demais. Guardei-o durante quatro anos. Todos os invernos, vestia-o, sentia a tensão nos ombros e pendurava-o de volta.

Um casaco de lã muito pequeno pendurado num cabide, representado num estilo de pintura realista do século XIX.

Livrar-me dele parecia livrar-me dela. Já não somos muito próximos, mas o casaco ainda está pendurado ali, um fantasma de uma amizade que ainda não acabei de lamentar.

💰 O Custo de Deixar Ir

Deitar fora uma peça de roupa que ainda tem vida parece um desperdício. Mas mantê-la também é um tipo de desperdício — de espaço, da oportunidade de a dar a alguém que realmente a usaria.

Apegamo-nos a coisas porque:

  • Fomos ensinados a não descartar.
  • Pagámos bom dinheiro.
  • Talvez, quem sabe, o próximo ano seja diferente.

Mas o próximo ano chega e a camisa continua pendurada. O desperdício acontece de qualquer forma. A questão é com que desperdício podemos viver.

💡Dica: Considere doar ou vender roupas não usadas que já não lhe servem. É uma forma de passar o potencial a outra pessoa.

📖 A Complicação Honesta

Talvez manter estas roupas não seja sobre fantasia ou culpa. Talvez seja sobre tempo. Uma camisa é um pequeno registo silencioso de quem eras quando a compraste. Livrar-se dela significa fechar um capítulo que ainda não acabaste de ler.

A camisa de linho azul lembra-me de um verão em que pensei que me tornaria alguém mais espontâneo. Não me tornei. Mas gosto de ter tentado. Então a camisa fica, não como uma mentira, mas como um marcador.

Provavelmente vou mantê-la mais um ano. Ou vou finalmente dobrá-la num saco de doações no próximo sábado. De qualquer forma, a questão ainda estará lá, à espera no armário.


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