A comida que você para de ver na sua própria geladeira

A comida que você para de ver na sua própria geladeira

Há uma prateleira na geladeira de todo mundo onde as boas intenções vão amolecer silenciosamente no escuro.

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Há um recipiente no fundo da minha geladeira agora. Eu sei que está lá. Eu mesmo o coloquei lá, quatro dias atrás, com verdadeiro entusiasmo. Ele guarda a segunda metade de uma abóbora que assei num domingo, quando a semana inteira ainda parecia possível. Já abri essa geladeira umas vinte vezes desde então. Não a vi nem uma vez.

👀 Por que a comida se torna invisível?

Não é exatamente uma questão sobre desperdício. É sobre visão. A abóbora não está escondida. Ela fica na altura dos olhos, atrás do leite, numa tigela de vidro transparente. E ainda assim minha mão passa por ela todas as vezes, alcançando o queijo, a manteiga, as mesmas três coisas que sempre pego. A comida que comprei de propósito virou mobília. A comida que comprei por impulso acabou em um dia.

Vista do interior de uma geladeira: uma mão passa por uma abóbora numa tigela de vidro em direção ao queijo e à manteiga.

🏛️ A geladeira como museu de intenções

A maior parte do que entra ali não é comida. É um plano. O maço de salsinha é um plano de cozinhar com mais ambição. O iogurte é um plano de ser o tipo de pessoa que come iogurte. O meio limão é um plano de usar o limão inteiro na próxima vez.

Fazemos compras para um eu futuro, e a geladeira guarda silenciosamente todas essas versões de nós, empilhadas e murchando, até que um dia as jogamos fora e começamos de novo.

📦 Comemos o que é visível, não o que está lá

A acessibilidade importa mais que a fome. A fileira da frente é consumida. As prateleiras da porta são consumidas. Qualquer coisa que exija mover outra coisa, ou abrir uma tampa, ou decidir o que fazer com ela, pode muito bem não existir.

Prateleiras da geladeira mostrando um recipiente raso com sobras na frente e um recipiente fundo escondido atrás de um pote.

É por isso que as sobras num recipiente largo e raso desaparecem e as sobras num recipiente fundo e estreito não. Não é a comida. É o pequeno custo físico de chegar até ela. Somos mais preguiçosos do que admitimos, e a geladeira é onde isso aparece.

🤔 Talvez não seja esquecimento

Aqui está a parte da qual não tenho tanta certeza. Vim assumindo que simplesmente não noto a abóbora. Mas há outra leitura. Algumas comidas evitamos de propósito. As sobras de uma refeição que não deu certo. Os legumes comprados num lampejo de otimismo que desde então se apagou.

Abrir esse recipiente significa admitir algo — que a semana me escapou, que cozinhei para uma pessoa que não sou.

O fundo da geladeira não é um ponto cego. É um lugar onde colocamos coisas que não queremos olhar.


🧊 A prateleira que guardamos

Vou limpá-la neste fim de semana, provavelmente. Vou me sentir brevemente mal, depois brevemente virtuoso, depois comprar mais salsinha. A geladeira vai se encher de planos de novo. Alguns serão comidos. Alguns vão amolecer no escuro, esperando uma versão de mim que está sempre prestes a chegar, e nunca chega de fato, e continua abrindo a porta mesmo assim.

Gaveta de legumes aberta com salsinha murcha e meio limão mole, porta da geladeira aberta atrás.

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