Há um lápis na gaveta da minha cozinha. Ele tem cerca de cinco centímetros, com o nome de uma loja de móveis impresso na lateral em letras douradas. A borracha acabou. A madeira está roída perto da ponta, não por mim. Nunca o usei para escrever nada. Já o mudei de um apartamento para outro, três vezes até agora.
✏️ A pergunta
Por que guardamos objetos que nunca usamos? Não os sentimentais — os sapatinhos de bebê, o ingresso do show. Aqueles que estão apenas lá.
- Um chaveiro de um hotel que você não lembra.
- Uma colher de plástico que veio com um pedido de delivery há três anos.
- Um brinco solitário cujo par desapareceu.
Eles ocupam espaço. Não servem para nada. E, no entanto, jogá-los fora parece uma pequena traição.
🎁 A lembrança de uma transação
O lápis veio de graça com uma compra. Comprei uma estante, e o caixa o entregou junto com o recibo. Não era um presente. Era uma ferramenta, para ser usada na loja e depois descartada. Mas eu o trouxe para casa.
Talvez porque parecesse um desperdício deixá-lo. Talvez porque a loja tivesse uma boa iluminação e o vendedor fosse gentil, e o lápis me lembrasse disso. Então ele se tornou uma lembrança de uma transação. Um pequeno marcador de um momento que, de outra forma, teria desaparecido completamente.
Por que guardamos objetos que nunca usamos? Não os sentimentais — os sapatinhos de bebê, o ingresso do show. Aqueles que estão apenas lá.
🔮 A fantasia do uso futuro
Há também a fantasia silenciosa de que um dia precisarei deste lápis. A energia vai acabar. O telefone vai morrer. E ali, no escuro, meus dedos encontrarão este toco de madeira e eu rabiscarei um bilhete à luz de velas. Isso nunca acontece. Mas a possibilidade parece real o suficiente para manter o lápis.
Fazemos isso com todo tipo de coisa. Potes velhos. Botões de reserva. Cabos de celulares que não temos mais. Somos acumuladores de potencial, não de coisas.
😣 A culpa de jogar fora algo funcional
Mas a razão mais forte pode ser a culpa. O lápis ainda funciona. Ainda pode fazer uma marca. Jogá-lo fora parece admitir que sua utilidade passou, que ele sobreviveu ao seu momento. E se podemos fazer isso com um lápis, o que mais podemos descartar?
- ✅ Um amigo que já não se encaixa.
- ✅ Um emprego que um dia foi empolgante.
- ✅ Uma versão de nós mesmos.
O lápis fica na gaveta como um teste silencioso: consigo manter algo mesmo quando não tem propósito? A resposta, por enquanto, é sim.
⚠️Mas se podemos fazer isso com um lápis, o que mais podemos descartar? Um amigo que já não se encaixa. Um emprego que um dia foi empolgante. Uma versão de nós mesmos.
🤔 A complicação honesta
Claro, algumas pessoas usam esses lápis. Minha mãe mantém um copo deles perto do telefone e os aponta com uma faca de cozinha. Ela diria que o problema não é o lápis, mas minha atitude em relação a ele. E ela teria razão.
Talvez o lápis não seja um fardo, mas um recurso, esperando um momento de atenção. Talvez a culpa não seja por jogá-lo fora, mas por nunca usá-lo. Esse é um tipo diferente de fracasso.
🏁 O fim
Provavelmente vou guardar o lápis até me mudar de novo. Então vou olhar para ele, hesitar e colocá-lo numa caixa. Ele viajará comigo para outra cozinha, outra gaveta. E me perguntarei, novamente, por que não consigo me livrar dele. Talvez essa seja a verdadeira resposta: algumas coisas são mais fáceis de carregar do que de decidir.
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