Tem um pote de geleia de framboesa na minha geladeira. Custou mais caro que o normal. O rótulo é bonito, a fruta aparece através do vidro. Comprei há três meses. Abri exatamente uma vez, tirei uma única colherada e coloquei de volta. Desde então, toda manhã, pego a geleia mais barata.
🍓 O pote especial
O pote está esperando por um momento que o mereça. Um brunch de domingo com amigos. Uma noite tranquila em que eu tenha tempo para apreciar a textura. Mas o domingo chega e estou cansado. A noite chega e eu só quero torrada. A boa geleia fica no fundo, e a geleia comum é terminada e substituída.
A ocasião especial é sempre na próxima semana. A próxima semana nunca se torna hoje.
😬 A culpa do desperdício
Parte de mim sabe que, se eu abrir a boa geleia e comê-la numa terça-feira qualquer, ela vai acabar. Aí não terei nada guardado. O pote vai ficar vazio, e terei gasto o dinheiro numa terça-feira que pareceu igual a qualquer outra. Isso parece uma perda. Então eu o mantenho cheio, como se um pote cheio de geleia cara fosse um tipo de ativo. Mas um ativo que você nunca usa é apenas uma coisa ocupando espaço.
O verdadeiro desperdício não é a geleia que eu como. O verdadeiro desperdício é a geleia que vira um experimento científico no fundo da geladeira daqui a seis meses.
💭 A fantasia da mordida perfeita
Imaginamos que a boa geleia terá um sabor melhor quando as circunstâncias forem ideais: o pão saído da padaria, a manteiga macia, e nos sentamos sem o telefone na mão. Mas a mordida perfeita é uma história que contamos a nós mesmos. A geleia é só geleia. Ela também tem um gosto bom numa torrada comum.
A fantasia da ocasião perfeita nos impede de aproveitar a coisa em si. Preferimos a ideia da geleia à própria geleia.
💡Tente isto: Abra a boa geleia na próxima terça-feira. Use-a. O momento perfeito é qualquer momento em que você decide apreciá-la.
🤔 Talvez guardar seja uma forma de respeito
Mas tenho que admitir que há algo em guardar que não é apenas tolice. Quando você compra algo especial, quer honrá-lo. Não quer devorá-lo entre reuniões. Quer dar atenção a ele. O problema é que a atenção nunca chega. O respeito se torna negligência. A coisa que você pretendia tratar bem acaba esquecida.
A boa geleia não é a única coisa com que isso acontece. Tem camisas boas no armário. Livros bons na estante. Boas ideias que pretendemos colocar em prática algum dia.
A boa geleia ainda está lá. Posso abri-la amanhã. Ou não. O pote não se importa. Mas eu noto que estou pensando nela agora, e isso já é alguma coisa.
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